Há algum tempo recebemos da Editora Record um lançamento que nos chamou a atenção: “A Pequena Guerreira”, escrito por Giuseppe Catozzella e inspirado na história de Samia Yusuf Omar, uma menina nascida na Somália que chegou a participar dos Jogos Olímpicos de Pequim e morreu afogada ao tentar fugir de seu país. Só essa pequena descrição já me deixou MALUCA pra ler o livro, por mais que ele seja inspirado e não uma biografia literal – meu estilo literário favorito.

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O autor teve a ajuda de Hodan, uma das irmãs de Samia para entender e contar toda a história da jovem. O livro chegou, comecei a ler na mesma hora e aos poucos fui demorando um pouco mais porque me apeguei à Samia e não queria ler os horrores pelos quais ela passaria até sua morte. A família, a cidade, o país em guerra, suas perdas, a paixão pela corrida compartilhada com Alí (seu amigo de infância) e a dificuldade para realizar o sonho de chegar aos Jogos Olímpicos: tudo está no livro e é mostrado como se a própria Samia estivesse narrando a história. Impossível não se  envolver, chorar ou se apaixonar pela menina. A história é linda, mas MUITO triste. Chorei horrores lendo, mas adorei o livro. <3

Como sempre acontece quando leio sobre a vida de alguém que me inspira, fui procurar um pouco mais de informações sobre a Samia. Assisti ao vídeo de sua participação nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, com ela chegando em último lugar (a menina não tinha nem treinador, nem patrocínio e usou as próprias roupas e tênis para correr):

Imagine isso: você nasce em um país que acabou de entrar em guerra e cresce em uma cidade cheia de ódio (clãs inimigos ditam o que todos devem fazer), banhada pelo mar mas sem poder sequer encostar nele por medo de ler assassinada por algum dos clãs no caminho pela areia até chegar a ele, extremamente pobre, cheia de sonhos e vontades. Conforme Samia crescia, crescia também a guerra e as privações. Ela perdeu amigos, parentes, a liberdade para treinar (por um bom tempo só podia correr escondida, de madrugada, no estádio da cidade ou coberta com véus tão quentes que a faziam perder o ar). Seu maior ídolo era Mo Farah, o somali mais famoso e ganhador de várias medalhas olímpicas – inclusive a de ouro nos 10.000m na Rio 2016 – e era com uma foto dele colada à parede ao lado de sua cama e sonhava que um dia também competiria nas Olimpíadas.

A guerra, como já disse, me privou do mar. Em compensação, me fez querer correr. Porque grande como o mar é minha vontade de correr. A corrida é o meu mar. – Pg. 114

A equipe somali de atletismo não tinha dinheiro, mas conseguiu dar um mínimo de estrutura para a garota participar de competições dentro e fora de seu país e conseguir a classificação para Pequim. Era a primeira vez em que Samia pegaria um avião, ficaria em um hotel mais bonito e tomaria banho de banheira. Ela estava em êxtase, se vestiu com a melhor roupa e desfilou na cerimônia de abertura. Foi para a competição e ficou fascinada por ver tantos corredores que admirava por perto, feliz por estar realizando seu sonho, mas com vontade de melhorar seu desempenho e voltar nos Jogos de Londres ainda melhor. Voltou à Somália com isso em mente, querendo fazer todo o possível para alcançar esse objetivo.

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Samia em Pequim 2008: com Abdinasir Said Ibrahim (o outro atleta somali a ir para os Jogos naquele ano), na cerimônia de abertura e durante a prova.

Na Somália, nada havia mudado. Samia continuava sem treinador, sem equipamento, sem um acompanhamento para conseguir ficar mais forte e veloz. Foi aí que ela conheceu uma jornalista americana que a convenceu a sair do país para treinar. Foi a jornalista quem conseguiu que ela fosse aceita para treinar em Addis Abeba, onde ela ficaria longe da guerra e teria apoio profissional para melhorar seu desempenho. Chegando lá, ficou impedida de treinar oficialmente enquanto os papéis de liberação não chegassem da Somália. Depois de esperar 5 meses sem ter uma resposta, resolveu seguir os passos de sua irmã favorita e fugir para a Europa, onde acreditava que poderia se dedicar totalmente a ser atleta.

É nessa hora que vemos que Samia, apesar de todo o horror que viveu na guerra, ainda teria muito mais provações para passar. Para fugir, ela contratou os serviços de traficantes, responsáveis por levá-la em uma viagem infernal até a Líbia, para de lá seguir de barco até a Itália. Samia passou sozinha por prisões, maus tratos, privações de comida e água e medo. MUITO MEDO. Enquanto lia toda essa parte de sua história fiquei pensando o que faria no lugar dela e a verdade é que não sei. É tudo tão violento e irreal pra gente, que nunca viveu em um país com guerra e que nunca sentiu o pavor de largar tudo o que conhecemos e temos para tentar uma vida melhor, que não consegui nem me imaginar na pele de Samia naquele momento.

Enquanto pesquisava sobre Samia, dei de cara com essa entrevista feita com Mohamed Daud Mohamed, um dos dois atletas somalis presentes na Rio 2016. Não encontrei legendada, então conto um pouco do que ele fala: como o governo da Somalia não financia os atletas, ele só conseguiu chegar ao Brasil através de doações. Na Somalia, não há uma pista de corrida apropriada para o treinamento, não há treinador para a preparação dos atletas e há toda a preocupação que a guerra traz e que não deixa com que o atleta se concentre apenas em seu treinamento, já que ele tem sempre que pensar na possibilidade de ocorrer algum ataque durante o treino ou se haverá comida para se alimentar quando voltar para casa. Resumindo: a situação dos atletas somalis não mudou em nada desde 2008, é provável que tenha até piorado já que a guerra civil continua até hoje.

FICHA:
Título: A Pequena Guerreira
Autor: Giuseppe Catozzella
Editora: Record
Número de páginas: 224
Preço: a partir de R$ 23,90*
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* Preços pesquisados no dia 18/08/2016.

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