Depois de 90 dias dentro de casa com as minhas guriazinhas, voltei a trabalhar. Foi um período tão intenso, com tanto trabalho e algumas incertezas que ao fim dos 90 dias e preparando-me para retornar ao trabalho me peguei saudosa. Peguei-me tentando guardar na memória cada momento ao lado da minhas meninas, sem nenhum tipo de interferência externa, sem preocupação com horários marcados, sem mil e um compromissos, um empilhado em cima do outro. E foi como forma de deixar essas memórias ainda mais claras que resolvi escrever esse texto.

Ver os álbuns de fotos, foi atividade quase que diária em casa.

Começamos a quarenta de forma bem intensa. Uma loucura na rua, sem ninguém saber ao certo como se preparar, empresas e escolas fechando, todo mundo correndo do hospital e nós tivemos que correr direto para um. No dia que a minha empresa optou por fazermos o trabalho home office, tive que ir correndo para o hospital com a Rafa por solicitação do médico ortopedista que tinha acabado de atendê-la em uma consulta. A Rafa estava com uma dor no quadril bem forte e não conseguia andar direito. Tivemos que ir ao hospital para fazer os exames e descartar, ou não, uma possível infecção. Após vários exames de sangue, raio-x, ressonância e 2 dias de internação, a infecção foi descartada e voltamos para casa. Graças à pandemia tive como ficar em casa observando a melhora dela.

Fui uma das felizardas que fez aniversário na quarentena. Eu que estava toda cheia de planos para comemorar meus 40 anos de uma forma bem legal, passei meu aniversário do jeito mais inusitado possível. Só nós 4 e ouvindo sertanejo na sacada. Meu aniversário foi bem no início da quarentena, então não teve festa na caixa, presentes por correios, nada. Pegou todo mundo de surpresa, num grau que não sobrou surpresa para a aniversariante aqui, hahahaha. Fiquei tão broxa que não consegui nem escolher uma comida especial, credo! Mas não se preocupem, 40 + 1 tá logo ali.

No início confesso que me desesperei. Achei que ficaria desempregada, que não conseguiria fazer almoço, dar aula, trabalhar, fazer jantar, treinar, arrumar a casa…mas depois de 2 semanas ‘denticasa’ as coisas se ajeitaram. Uma rotina para esse período foi criada, as meninas super se adaptaram e fomos passando dia após dia intensamente, nós 3 coladinhas.

No início eu achava que estava tudo indo bem na nossa rotina porque o Renato continuava saindo para trabalhar. As meninas seguem rotina imposta pela mãe, o marido não segue rotina imposta pela esposa, hahaha. Só que aconteceu do Renato precisar ficar 20 dias trabalhando de casa por conta de um caso de Covid-19 onde ele trabalhava, achei que a minha casa viraria um circo. Pelo contrário, ele entrou no nosso esquema. Coitado, trabalhou tanto que só conseguia sair do ex-quartinho-brinquedo-novo-escritório-com-banquinho-e-mesa-de-bar para comer. Almoçava e voltava correndo para trabalhar.

Uma pausa após o almoço durante o home office para ver alguma besteira com as meninas no celular.

Uma das coisas mais legal que aconteceu durante esse período foi acompanhar de perto, intensamente, o desenvolvimento das meninas. A Rafaela estava com muita dificuldade no aprendizado da leitura, precisava que a mamãe pegasse na mão dela e ajudasse nesse processo. Depois de algum nervoso da minha parte, muita força de vontade e disciplina da parte dela, conseguimos. 3 meses depois ela já está devorando os primeiros livros cheios de páginas e com histórias bem longas. A Rebeca, aos 5 anos, faz com que a gente fique meio abobalhado com a maturidade dela. Minha ajudante oficial, não aguenta ficar parada. Como o pai, detesta ficar muito tempo dentro de casa. Foi a que mais sentiu de nós 3, mas com jeitinho foi muito fácil de conduzir.

As duas tiveram a fase do café da manhã na cama, quem acordasse primeiro fazia o café e levava na cama para a outra. Mas foi logo substituído pelo “lanche surpresa”. Na parte da tarde, durante a hora do desenho, uma delas ia na cozinha e preparava um lanche surpresa para comerem juntas. No geral se resumia à Beca inventando lanche para a Rafa. Isso porque a Beca gosta muito de ser útil, e a Rafa ama ser mimada.

Uma das fases da quarenta foi a do café da manhã na cama. Até trocarem para o “lanche surpresa”.

Eu comecei uma dieta durante a quarentena. Na semana anterior ao tumulto tinha ido a uma consulta com a nutricionista, mandei fazer as fórmulas que ela passou com suplementos, tinha gasto uma nota nisso tudo. Para fazer jus ao meu dinheiro e à minha vontade de mudar, eu passei os 90 dias na luta entre dieta e treino dentro-de-casa-sem-peso-só-no-funcional. Manter os treinos foi o mais difícil, ainda é, pra quem gostar de fazer exercício de força, ficar alternado vários exercícios + polichinelo +elevação de joelho + meio burpee…socorro!

Encerrarei as memórias com a comemoração do Dia dos Namorados. Essa data nunca foi especial para mim e para o Renato, mas esse ano falei muito sobre ela em casa. Eu e a Carô estávamos trabalhando duro para o Dia dos Namorados (que foi um sucesso, Graças a Deus), então as meninas me ouviam mandando áudio para a Carô sobre isso ou eu comentando com o Renato sobre o que estávamos preparando para essa data. Rebeca que ama uma festa, passou 2 semanas perguntando quando seria o “aniversário do dia dos namorados”. Não faço ideia do que aconteceu exatamente, de onde elas tiraram isso, só se que prepararam um piquenique no meio da nossa sacada. Eu preparei uns lanchinhos, elas fizeram a arrumação e quando papai chegou comemos. Ficamos no quarto enquanto elas arrumavam tudo, foi muito fofo e até taça de vinho tinha para brindar.

Um piquenique no dia dos namorados.

Tivemos problemas durante esses 90 dias? Tivemos. Mas nenhum dele que não fosse possível solucionar. Graças a Deus, até o momento, não tivemos nenhum caso grave e Covid-19 dentro na nossa família ou por parte de amigos próximos. Tivemos alguns problemas financeiros, tanto nós como alguns familiares e amigos, mas nada que não seja administrável. Fico apenas com as boas lembranças desses momentos intensos e tão prazerosos ao lado do meu trio favorito. Não teve uma roupa jogada no chão ou uma casa muito suja por alguns dias que tirasse a nossa harmonia.

O sentimento e as lembranças que ficaram foram tão bons que na véspera de voltar a trabalhar, após deixá-las na minha mãe, eu caí no choro. Um choro de saudade, de um tempo maravilhoso que não teremos mais.

Se você ainda está em casa, equilibrando os pratos entre os filhos, o marido bagunceiro, a reunião e a louça suja, respire, deixe a louça e aquele banheiro que está precisando de uma boa lavada de lado, e aproveite esse tempinho só vocês. Dificilmente viveremos outra época assim.

Em uma manhã preguiçosa de domingo.